domingo, 19 de junho de 2016

Faz Uma Música Pra Eu Não Ficar Triste?



A casa vazia como está. Sombria equação de solidão e desapego de si mesmo. A casa como nós, tem suas memórias escondidas nas lacunas do tempo oblíquo e deslizante do limbo de todos os sentidos. O café está passando e traz a nostalgia com seu aroma úmido e revigorante. A folha de papel está branca – e assim permanecerá – diante das constatações e de ideias que não vêm para preencher os acordes que são repetidos quase num desespero contíguo no meu Dobro Ressonator, e o ecoar das notas a preencherem chorosos e melodiosos como a voz de uma velha negra a cantarolar numa plantação de algodão em algum lugar do sul dos Estados Unidos. Mas a letra foge, foge no resto que abriga de silêncio e solidão, a casa. O espaço que o entoar das cordas metálicas do violão não preenchem, em alma vazia, fica o eco do passado. Levanto-me condoído do sofá e encosto o instrumento na minha imensa estante de livros, que reina solene na sala de estar - que cheira a uma velha biblioteca, com os grossos volumes de música e bibliografias de grandes mestres - e vou até a cozinha que já não traz as marcas de que ela esteve por aqui há alguns dias. Pareço um eterno solitário. O café está pronto. A música não. Não quero apenas uma canção instrumental, quero alimentá-la com palavras, comungar a dor da voz com a melodia lamentosa do violão. Fazer um casamento antigo entre poesia e música. Bebo o café. Devagar. Pensativo, na verdade, quase sem ter o que refletir, a não ser no vazio que a casa se encontra. Há tempos não componho uma música. Na verdade, há tempos não me sinto músico. Sinto-me um copo vazio, mas não posso deixar passar. O Blues é minha vida e minha vida é um verdadeiro Blues. Sopro de saudade e melancolia num furacão de derrotas do coração. Súbito, ouço o toque da corda Mi bordão vindo da sala. Será que ela voltou? Está a me pregar uma peça? Quase chego a sorrir. Mas o sorriso não vem, como a maldita letra que se nega a ser vomitada para o papel. Finjo ignorar e me sirvo de uma outra xícara de café. Sob a soleira da porta da cozinha que dá para o quintal dos fundos de minha casa, vejo alguns pássaros brincando e cantarolando no velho e robusto pé de manga. Uma verdadeira algazarra incompreensível com todo tipo de canto. Ao menos um canto com voz. Sem violão, mas com voz. Levo um susto quando um acorde aberto, bem mais forte que o anterior, ataca todas as cordas – como se uma criança estivesse testando a sonoridade do instrumento – e deixo imediatamente a xícara sobre a pia da cozinha e num rompante parto para a sala. Ela voltou e está a brincar com minha paciência. Quando partiu, não queria conversa. Já volta com suas brincadeiras de pregar susto... Agora eu que não quero papo. Ao chegar na sala sou surpreendido pelo vazio. O mesmo vazio que antes estava mergulhado com o esforço de ideias perdidas. Como poderia? Enlouqueci? Eu juro ter ouvido o violão. No centro da sala, atônito, olho para o instrumento que intangível e intocado permanecia apoiado na estante do mesmo jeito no qual o havia deixado. Enlouqueci, só pode ser. Já não respondo pela minha sã consciência e já devo estar ouvindo coisas. Para confirmar fui até a varanda e nada. A casa está vazia. Somente o violão e eu, no velho sofá de couro com meus devaneios e minha loucura. Respiro fundo e volto para pegar o meu café. Quando retorno à sala pego novamente o instrumento e fico compenetrado a olhar para a folha de papel em branco. Numa das mãos, caneta em punho. Deixo a caneta sobre o papel e toco novamente a música: um blues clássico, bem compassado, e solfejo um na-na-na, mas as palavras não saem. Repito o processo com um pouco de mais atenção, mas continua a folha a me observar, risonha e virgem, parece debochar do meu desespero. Está tudo preso na cabeça, na ponta da língua, mas a música está como a casa, incompleta. De repente ouço um risinho vindo da cozinha. Paro no mesmo momento o que estou fazendo e fico ressabiado a olhar assustado para a direção da porta. Parecia riso de criança, não dela. Levanto-me vagarosamente e como um felino se movimenta, coloco o violão sobre o sofá e vou pé ante pé até a porta da cozinha. Mas um silêncio desconfortante toma posse do ambiente, nem mais os pássaros fazem a sua festa no quintal e a brisa que corria desaparece fazendo a paisagem parecer um quadro de tão estática. Não há ninguém na cozinha e uma agonia toma conta do meu peito. Tenho uma vontade infantil de chorar. Vou até a pia e sirvo-me do resto de conhaque deixado por ela. Estaria enlouquecendo, de verdade? Estou cobrando muito da minha mente, só pode. Estou exausto e cansado com tudo o que aconteceu na última semana. Nunca serei perdoado, mas também nunca perdoarei suas ofensas. O dia começa a se despedir e uma noite abafada dá as caras para a minha sinfonia desesperançada. Acendo as luzes e deixo o pensamento flanar por caminhos tristes e imperdoáveis. O Blues é minha vida. Mas minha vida, o que é? Já não sei responder. Seria um Blues? Talvez não. Talvez seja apenas o vazio. O peso que faz pender minha cabeça a quase pegar no sono. Os olhos pesados se firmam no meu Dobro Ressonator. Está ali entregue aos meus caprichos. De repente, o vulto de uma menininha cruza aos pulinhos - como uma pequena gazela brincante - de um lado para o outro da porta da cozinha. Que porra é essa? Louco de pedra, de vez! Levanto-me bruscamente, mas apesar do susto encosto cuidadosamente o meu violão na estante e corro na direção da porta. Chegando lá dou com uma pequena garotinha, de pele morena e cabelos negros cacheados, vestida como uma bonequinha, com os olhos grandes e redondos a me fitar do meio da cozinha. No primeiro momento não tenho nenhuma reação. Sinto-me confuso, meio tonto. Mas pergunto:

"Quem é você, o que está fazendo aqui, menina?"

Ela sorri e responde com uma vozinha suave:

"Cadê a moça que mora aqui?"

"Não mora mais moça nenhuma aqui, menina. Como você entrou?"

Ela não dá a mínima para minha pergunta e segue para o quintal, no escuro. Sem saber como agir, acendo a luz da cozinha e vejo sua silhueta ao longe sentar-se com pesar, cabisbaixa, sobre uma grande raiz protuberante da mangueira.  Sinto um medo incomum, mas ao mesmo tempo me preocupo com aquela situação. "Menina, vai pra sua casa, seus pais devem estar preocupados."

"Tenho pais não, seu moço."

"Como assim?" Pergunto me aproximando.

"Minha casa é aqui."

Com estas palavras, eu paro no meio do percurso. Sinto meu coração acelerar e um medo incontrolável começa a tomar conta das minhas pernas. Não consigo dar um passo. Ela continua mergulhada no breu, sua silhueta triste e melancólica. De repente a vejo se levantar e caminhar cabisbaixa em torno da árvore. "Quem é você?" Eu grito. Ela para e diz: "Faz uma música pra eu não ficar triste?" E segue para trás do tronco da mangueira. Continuo sem saber o que fazer. Tomo coragem e começo a caminhar lentamente em direção à árvore, quando de repente ouço um barulho de coisas caindo e quebrando vindo de dentro da minha casa, que me faz abandonar a menina sozinha no quintal escuro. Parecia a estante da sala desmoronando. Pensei logo no meu violão caríssimo - motivo de brigas e mais brigas - sendo esfacelado com o peso de livros, tevê e tudo o mais. Mas quando chego à sala tudo está em ordem. Quando me volto em direção à cozinha ela está lá, me olhando, triste, com um olhar melancólico de quem pede alguma coisa. "Faz uma música pra eu não ficar triste?" Ela fala manhosinha. Acordo no susto, molhado de suor, quase caindo do sofá. Meu coração bate acelerado. Olho a minha volta e nada. O silêncio. O vazio. O papel ainda intacto com a caneta inútil às ideias saídas pela culatra estão repousados sobre a mesinha de centro. O meu violão espera. Devo ter dormido a tarde toda. Sonho estranho, muito esquisito. Devo estar realmente enlouquecendo. Curioso que sou vou até o quintal, acendo a luz e tudo está quieto. Vazio, como a casa e como minha inspiração. Na sala pego novamente meu violão, encaixo o slide em meu mindinho esquerdo e o arrasto pelo braço do instrumento dedilhando qualquer coisa para espairecer, fazendo um som vibrante e vivo. Mas num lapso de segundo penso ouvir um risinho de criança vir da cozinha. O papel está vazio sobre a mesa da sala, minha inspiração também, mas a casa, bem... a casa talvez não.

   





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