sexta-feira, 1 de julho de 2011

Poema das coisas desencontradas





















Quero ouvir o improviso de Parker
Cortar o silêncio frio sob o neon
Dos edifícios abrutalhados todos
Em sombras, solidão e distância.

Quero que Whitman conte-me algo
Obsceno e engraçado durante
A encenação do crucificamento.

Quero que o vinho mais barato
Escorra de minha caneca farta
E molhe todos os papéis inúteis
Que carrego em meus bolsos.

Quero que Ray me ensine a ver
Como uma canção pode ser
Um doce nascendo do amargo.

Quero a incandescência
Dos vagabundos errantes
Que redescobrem a urgência
De se viver sempre além das 24 h.

Quero que as cores de Basquiat
Devorem todos os metrôs de NY
Enquanto a noite levanta suas asas.

Quero a inconstância dos fatos
E a explosão dos sentimentos retidos
Soltos pela página branca que escrevo.

Quero o nome exato da mulher
Que dormi na noite anterior a essa
Quero decifrar os mínimos detalhes
Da arquitetura indecifrável daqueles olhos.

Quero o inevitável presente ainda que passe
E após algum tempo já não seja novidade
Quero tudo e nada pelo preço da unidade.

Não quero ouvir desculpas plausíveis
Para a aceitação do que não é questionado
E nem o que é religiosamente seguido à risca.

Não quero que sepultem os meus desejos
Em cartórios empoeirados pela inércia...

Não exijo muito das pessoas e nem da vida
Só quero a realidade de todos os meus sonhos.

(Sobretudo os mais impossíveis)

Posto que aos poucos... O mais é só querer.

4 comentários!:

Poliana disse...

Grandioso, Fabiano!! Nossa, poesia que liberta, que faz sonhar, que dá liberdade.

Parabéns!!

Lu Rosário disse...

Pode-se querer tudo o que não está ao próprio alcance e, também, pode-se querer nada. O paradoxo da vida está nos desejos incontidos e na busca de todos eles.

Um beijo, Fabiano.

F. Reoli disse...

Poema cortante pruma noite de domingo, chovendo Merthiolate. Abraço, irmão.

Anônimo disse...

Tocante!
H Lorien.