ANÁLISE DA LETRA DA MÚSICA MINHA EGÜINHA POCOTÓ
Prof. Vantuil G. dos Santos
Ao ouvir esta linda melodia, acompanhada de sua profunda mensagem, do eminente poeta Serginho, pude perceber o âmago da mensagem deste grande enviado para nossa sofrida e carente sociedade, no ocaso de sua civilização.
Pude hoje, escrever reflexivamente sobre mensagem desta poesia e procurando me redimir do erro cometido em não ter divulgado a essência deste clássico, pelo que o faço, agora, pedindo senões aos meus leitores, privando-os desta final flor de nossa literatura.
Infelizmente não escrevo e nem leio o clássico inglês do Serginho, assim sendo, o leitor irá perder o registro da eloqüência do inglês shakeasperiano deste profícuo escritor em sua introdução.
No entanto, para o bem da cultura nacional, deixo registrado o lindo poema de tão linda melodia que, infelizmente, não poderá ser ouvida. A letra por si só já nos fala muito.
“Vou mandando um beijinho
Pra filhinha e prá vovó
Só não posso esquecer da minha egüinha Pocotó.
Pocotó
Pocotó
Pocotó
Minha egüinha Pocotó (bis)
O jumento e o cavalinho
Eles nunca andam só
Quando sai pra passear
Levam uma égua
Pocotó
Pocotó
Pocotó
Minha egüinha Pocotó”
Por favor não critique. Não seja superficial. Veja a profundidade socrática desta mensagem. Passo a exigir inclusive a canonicidade desta letra.
Imediatamente podemos constatar a integração que, de maneira magistral, ele consegue fazer entre os elementos constitutivos da natureza. De uma maneira sublime ele proclama seus ouvintes a conviverem com o meio ambiente. Claro que isto está nas entrelinhas quando o mesmo manda um “beijinho pra filhinha e pra vovó” e também “pra minha egüinha Pocotó” . Observe que ele não se esqueceu do animal. Aqui todo o cuidado é pouco! Lendo sem refletir, o leitor poderá cair no erro ao pensar que Serginho quis comparar a vovó com a egüinha. Não, absolutamente não! Ele quis mostrar, isto sim, que a família não deve ser esquecer os animais, inclusive tratá-lo quando enfermar.
Mas voltemos a egüinha, ó perdão, à vovó.
A vovó e a filhinha representam o ápice da criação divina, que é o ser humano. A egüinha representa os animais que são indefesos e por extensão se aplica a toda natureza. Hoje, quando vemos o homem destruindo ou degradando o meio ambiente, constato a necessidade desta interrelação vaticinada por este profeta. O nosso poeta está na verdade, contestando e reivindicando o direito dos menos favorecidos ou mesmo àqueles que vivem à mercê dos poderosos, vivendo uma vida de animal. O carinho e cuidado que ele dispensa a egüinha é o paradoxo dos milhões de marginalizados de uma sociedade injusta em que somente as “filhinhas’ são lembradas e atingidas pelo sistema. Também ele está denunciando o contrabando descaradamente notório do comercio ilegal que fazer dos animais, rendendo milhares de dólares para seus contraventores.
Quando vejo o abandono, a comercialização, o contrabando, o extermínio e demais afrontas que fazem aos animais, ouço a voz deste verdadeiro profeta clamando por justiça.
Oh! Quanta sensibilidade, solidariedade e profundidade de argumentação.
Não é somente sob o aspecto ambiental que este profundo texto nos leva a refletir.
Passemos aos aspectos políticos.
Vejo nas entrelinhas, uma crítica feroz contra todo tipo de autoritarismo; de ditadura econômica; de governos de exceções; de privilégios e de corrupções. Se nossas autoridades tivessem uma visão clara do que se passa entre o povão e o que ocorre nas entrelinhas deste poema e melodia, com certeza esta obra prima de nosso acervo musical seria censurada e, o nosso autor seria preso. Tal como ocorreu no passado com “Pra Não Dizer Que Falei de Flores”, de Geraldo Vandré e “Apesar de Você”, de Chico Buarque e tantas outras. Não posso imaginar a lacuna que traria para a nossa cultura, se nossas autoridades apreendessem este verdadeiro hino para nossa nação. Temo com a divulgação deste pequeno comentário as classes governantes percebam que o autor está reivindicando um país que tivesse uma autêntica democracia, onde todos seriam verdadeiros cidadãos, isto é, terem o direito de dormirem com a barriga cheia e, muito menos sem os ditames de uma política econômica externa chamada Neoliberal, sob a égide de grandes potências.
A mensagem democrática está no posicionamento político do autor quando atribui a egüinha o direito de passear; de não ser esquecida; de nunca estar só. Pensemos: se entre os animais deve-se respeitar seus direitos, que dizer do ser humano. Este ser pensante, que segundo Sartre está “condenado à liberdade”?
Cremos que Serginho, devido ao seu caráter altruísta, preferiu se apresentar no diminutivo. Com este exemplo de humildade e visão, deveríamos uni-lo à galeria dos grandes homens que no passado tiveram discernimento do tempo em que viviam bem como captaram a própria inerência do ser humano, tais como Sócrates, Platão e Aristóteles, na antiguidade clássica. Nomes como S. Tomás de Aquino, Averróis, Abelardo(não confundir com Abelardo Barbosa, o Chacrinha) na Idade Média. Partindo para os tempos Modernos, teríamos uns poucos nomes que a ele se assemelharia, tais como Erasmo de Roterdã e René Descartes. Para a contemporaneidade poderíamos associar a Montesquieu, Rousseau, Voltaire Kant e uns poucos outros. No Brasil, devido a nossa pobreza, incluiria somente Machado de Assis e Carlos Drumond de Andrade. Espero que, após esta análise, a elite pensante deste país, possa reconsiderar o erro de todos nós.
Uma questão social que a genialidade do Poeta delata é a questão da propriedade privada (para os menos avisados, privada aqui, significa particular). Ele usa de forma simples, objetiva e singela: “minha eguinha”. Cremos que se deve ler com ênfase o pronome possessivo minha. O nosso poeta está defendendo um dos direitos fundamentais da democracia, que é o direito de ter, de possuir, tão bem defendido por um dos primeiros teóricos do mundo capitalista, o inglês John Locke. O grito do Serginho é o grito de uma pergunta que não quer calar: como é possível que ainda haja em nosso tempo quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados médicos mais elementares, quem não tenha uma casa onde se abrigar? Num país quando um cidadão não pode ter o direito de possuir uma eguinha, “que país é esse”?
É necessário também analisar a letra em seu aspecto psicológico quando o poeta revela, ao falar carinhosamente, “minha egüinha Pocotó.” O que o eminente escritor quer dizer, é que devemos valorizar as pequenas coisas. Você já notou que um grande problema começa com a não solução das pequenas coisas. Alguém já disse que a Guerra Mundial é a coletividades dos problemas não resolvidos de cada pessoa. Serginho ao chamar “egüinha” ele valoriza as pequenas coisas. Certamente ele se inspirou no grande psicanalista Freud que, para fazer suas análises recorria à inocência de sua netinha, fazendo perguntas elementares. Quando não valorizamos os pequenos detalhes nós nos perdemos no mar de problemas que estes mesmos se acumulam. Devemos sempre nos lembrar que tropeçamos em pequenas pedras do caminho, e não em grandes pedras. Ao chamar a egüinha de minha, ele está valorizando o que todos não dão importância.
Preciso registrar que o nosso literato ao repetir Pocotó, Pocotó, Pocotó, não se trata de uma vã repetição. Ele não está só enfatizando. Na verdade ele está se utilizando de uma estratégia dos grandes mestres da humanidade, em que se utilizavam da repetição para que seus alunos assimilassem suas idéias. Com a repetição, os conceitos se consolidam, diziam.
Preciso encerrar.
O trabalho precisa continuar a ser feito por mentes mais esclarecidas que poderão ver nesta letra o que estas “mal traçadas linhas” não enxergaram.
Peço somente para não distorcer ou deturpar o que o nosso grande poeta Serginho conseguiu com tanta maestria, isto é, fazer com que o povão brasileiro conseguisse enxergar: CHIFRE EM CABEÇA DE CAVALO.
Este foi o intento do autor destas linhas.