quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Devagar, devagarinho




Antigo Egito, quinto século AEC:
Entra a negra, princesa egípcia na sala do Palácio.
Os súditos se dobram em reverência.
O silêncio é o prenúncio das revoluções.
O que às vezes pode parecer covardia ou apatia é o que não se vê, mas está contido, contendo dentro toda energia. Que tal qual uma bomba atômica pode explodir quando se menos espera. Os silenciosos às vezes estão se corroendo de raiva e não de medo, preparando-se para atacar, fortalecendo-se do estudo dos pontos fracos ou fortes dos seus inimigos para então no devido momento como um felino silencioso à espreita, atacando sua presa, cometer-se-á a revolução que nada mais é que uma vingança viva partida do tido como morto pela imobilidade vista e, por isso, inesperado ataque muito energizado pelo acúmulo da espera que não desperdiça-se em empreitadas falhas e sem retorno. Mas que espera em silêncio.
Rio de Janeiro, vigésimo primeiro século AD:
Entra a adolescente, traje casual com seu exuberante black, em um elegante pub do Leblon. A primeira reação de José, garçom/direitista, cearense é um ímpeto de barrá-la, e começa a pronunciar as palavras:
- Não é permitido pedir ou vend...
Mas é surpreendido pelo olhar nada submisso da cliente e se coloca no seu devido lugar de tratar bem os clientes (ainda mais esta altiva).
Seu Paulo, taxista, não para para qualquer um - lê-se, qualquer um na visão dele, negro com perfil favela fashion wear.
Seu Paulo já foi assaltado, surpreendentemente pra ele, sempre por brancos bem vestidos perfil asfalto ep indo para São Conrado ou Ipanema.
- É!; - Diz seu Paulo. - Mesmo assim parece que na minha cabeça o bandido vai ser sempre o preto da favela.
Lúcio e Faustini jogam videogame, e Lúcio tem o apelido de Príncipe na aula de Capoeira (sim, você já imagina que ele é branco) e Faustini é chamado pelos colegas da PUC de Preteba, possui bolsa integral desde sempre e conheceu o seu colega lá.
Jogam sempre GTA na casa da mãe de Lúcio, a mãe de Faustini é servente no colégio. Numa determinada fase do game, Lúcio, o "príncipe" tenta explorar um hotel de luxo. Ele reclama:
- Putz! Esse jogo é pouco realista, porque você não consegue entrar em todos os prédios do cenário, embora essa versão do Xbox One seja impressionante, né cara?
Preteba responde chateado:
- Normal...
Ele lembra de um Centro Cultural do centro de São Paulo em que só ele quase foi barrado numa excursão da escola uma vez, porque seus colegas eram todos "branquebas". Ou, então de um famoso hotel de luxo, em Copa, onde foi barrado também, uma vez na volta da escola quando quis entrar sozinho para conhecer.
O pensamento do nosso garoto voou pela janela e fomos parar dentro de um cinema de pegação na Cinelândia, sabe? Onde passam pornôs héteros, a arquitetura interna ainda preserva a beleza e traços de uma época clássica, como o Odeon, o Cine Orly, o Palácio, e lá estava Edi, um jovem gay mais ou menos resolvido, buscando alguma emoção real - ou afeto mesmo.
Edi quer falar de um tal de Lori que estava prestes a conhecer no escurinho lá naquela tarde de pós feriado. Depois de o conhecer intimamente, quer dizer... Só sexualmente ), soube, - ele me contou, - havia servido a aeronáutica. Edi: "bem que achei isso, pelo rigor militar e masculinidade que exauria dele e que tanto nele me atraiu." Lori não quis deixar seu número mas disse que memorizou o do garoto, que depois confessaria não ser tão garoto assim. A linguagem de Lori era bem mano, zona norte, falou que tinha 28 anos, Edi achou parecia até mais, sentiu que teve uma troca deles, ali, uma química, isso continuou após ele finalizar.
Olhos nos olhos e os dois riem.
E solta:
- Porque você não namora? Tanta mina interessante na Lapa... - A reação de Edi foi:
- Oi?
Pensou porque não ele e Lori que neste instante, já parecia distante e fechado, como se se envergonhasse de tudo que rolara antes.
Preso nele mesmo, pela família talvez, talvez pela sociedade. Pensou: - Esse cinemão escuro e sujo é o lugar ideal para expiar esses pecados que ele talvez ache que está cometendo.
Quando sairam lá fora mesmo à luz dos postes, o talvez futuro ex-namorado nem o olhava nos olhos, Edi sabia que não iria ligar, se o que te manda é o que a sociedade espera de nós, peraí, sociedade não somos nós mesmos?
O pensamento saiu dali de novo e evaporou entre medos de pegar alguma coisa, gozadas, cuspidas e suores e voou... Passou voando em cima de um pastor que saía de um seminário político religioso e parou no meio de um papo entre as manas na fala de uma guria na "Marcha das Vadias" no mega fone:
- Então somos vítimas do senso comum. Pior trancados em si, vítimas de nós mesmos. E onde é que entra a mais-valia? Cê acha que eu não sei que parece papo de maluco? No jornal deu: 134 policiais mortos só ano passado mais 50 nesse ano juntando as estatísticas. A treta é: manos acusados de crimes que não cometeram, às vezes do crime mermu, e aqueles que tão com farda se sente na missão do extermínio, mas são sempre  também pretos ou pardos e pobre morador de favela, como a gente. São tão cruéis que fazem mano matar mano, tá me entendendo? Qual é, qual foi vai deslegitimar meu discurso dizendo que eu sou maconheira e que eu sou só uma youtuber? Só com muito ritmo e poesia pra destilar tanto ódio e violência institucionalizada.
Nisso dois universos estão prestes a colidir,  elas marchando esbarram com o pastor e alguns "irmãos" dele numa encruzilhada, que se sentindo ameaçado brada:
- Isto é uma pouca vergonha, mostrar os peitos. Amém irmão?... (um silêncio).
- Amém o caralho! É Saravá e Evoé nessa porra! Isso aqui é um movimento civil muito importante na luta contra o machismo, o feminicídio, a misoginia, lesbofobia, transfobia e coisas do gênero como homofobia também.
Os tribais eram mais calmos, suave? Nós pretas não somos as vítimas, vítima é o homem branco cis hétero, o público mediano que acredita, em toda essa programação mental, o leitor não letrado.
- Ahhhhhh. Entã-tão como pastor nomeado por Deus digo o Se-senhor te abençoe. Ei Raimundo porque tá pegando o ZAP desta, desta moça? Vamos embora!
Mas a mina continua:
- Isso corre mesmo. Vá de reto! Ha-ha-ha. Lembrei do muleque branco safado matando o motorista de Uber pai de família. Ah...Mas esse eu até gostei.
Não! Não da violência, mas do muleque ser branco. Porque se não tivesse filmado já iam dizer que o bandido era um negão. Peço as deusas, dai-me olhos novos pra não julgar. Ah! E pra acabar. Máximo respeito pras manas, pras minas, trans viadas, sapatão, bixas que não abaixa a cabeça nem se vitimiza. Abaixo a sociedade hétero centrada, que reproduz podridão fundamentalista e racista, vítima dela mesma, incapaz de amar e ser feliz como nós somos!
Houve um silêncio... Só o irmão Raimundo aplaudiu